Chovia. Não importava, ela precisava trabalhar.
Estava frio. Sem desculpas, alguns clientes agendados para este dia.
Acabou a luz. Para essas horas existem as velas.
Ela não sabia que roupa colocar.
Olhou, olhou, olhou.
Achou. A de sempre.
Para lutar contra o frio, colocou uma blusa de lã, longa e quente.
Contra a chuva, uma capa de chuva horrível.
Em sua maleta colocou os objetos de trabalho.
Eram chicotinhos, algemas e mordaças, a questão é que ela nunca sabia quem iria usar... Poderia ser ela, poderiam ser eles.
Fez seu caminho.
Um senhor educado a cumprimentou como fazia todos os dias. Ela mal olhou.
Ele, com o olhar tristonho, disse para o amigo ao lado:
− Ela é sempre tão feliz, deve ser a chuva.
Ainda na caminhada, uma senhora pediu informação.
A Puta apontou o caminho. Nessa hora, a senhorinha de bengala olhava um pedaço do chicotinho que escapava para fora.
Puta da vida, a Puta escondeu o bendito pedaço de couro e fechou o zíper de sua maleta preta.
No ônibus, ela sentia um cheiro, já não sentia mais o próprio perfume, apesar de maravilhoso e importado, era para os outros, seu nariz morrera para tal.
“Que cheiro maldito é esse? Tem alguém fedendo aqui.”
O ônibus, com aquela TV de muito mau gosto, continuava a caminhar rumo à putaria.
Chegando ao trabalho, foi ao banheiro dar alguns retoques no visual, descobriu-se menstruada.
Sorriu. Por isso fedia. A podridão que só ela sentia.
Avisou que não poderia trabalhar, pois estranhamente havia sangrado fora da data.
A cafetina ficou irada, mas fez cara de santa compreensiva.
− Vá mesmo embora, assim, só terei manchas nos lençóis.
A Puta voltou para sua casinha amarela.
Tomou um café na padaria com o senhor, e falou mais que um olá.
Largou a bolsa logo na porta, arrancou a roupa, ficando apenas de calcinha para conter o vermelho a fluir, buscou uma coberta, sentou-se em seu tapete verde.
Ficou ali, a bordar em ponto cruz uma toalha branca.
O desenho da toalha era uma margarida.
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