Domingo é dia de folga.
Puta de valor sabe respeitar o dia da família. Os clientes devem ir à igreja, passear no parque com as crianças ou simplesmente ir ao cinema.
Em um desses dias sagrados da família, ela, que também tem uma, logo após o almoço foi cumprir seu dever eleitoral.
Saiu para a caminhada, naquela cidadezinha. Pobre cidadezinha, continua “inha”, não pelo tamanho, mas pela criação de amebas que só faz crescer.
Ela visita pouco a cidade natal, quando vai é assim, andanças e olhares, pelos e para os lugares onde se descobriu puta.
Pé ante pé, passou por ruas cheias de histórias.
“Nossa! Foi bem ali naquele prédio que vi o primeiro pinto. Senti tanto medo e nojo. ECA! Nem deixei encostar pela segunda vez nos meus pêlos, corri para casa chorando. Quem diria?”
“Meu Deus! Praça do pega cria agora é cheia de camelôs? Caramba! Ninguém mais pode meter na praça? E nesse fim de mundo nem motel tem, ao menos mato ainda se encontra”.
“Vixe Maria! Quanto bêbado tem aqui hoje. Será sempre assim agora? Será só hoje?... Com a liminar contra a lei seca é provável terem oferecido cesta básica de mé, e já começaram a dar agora mesmo.”
Na sessão de sempre, foi medida de cima a baixo pelos mesários.
Sim, estava bem puta.
Calça legging preta fininha, de tão fininha era possível ver a pele.
Olhando bem para os olhos de um dos mesários, disse de forma meiga:
− Bem que poderia ter a profissão nessa sua lista, né? Fique com a minha para começar e fazer a sugestão. Sou da vida nada fácil, mas muito minha. Puta.
Voltando para a casa da família, ela viu um lugar importante da sua infância e adolescência.
Um cemitério.
Não pensou, entrou.
Ficou ali andando de túmulo em túmulo. Viu até que alguns amigos morreram recentemente.
“Paizinho do céu, do que será que esse moço morreu? Era tão certinho, deve ter ficado doente” - O moço sempre a desejou, ela nunca soube, morreu por uso excessivo de drogas.
“Ai, não pode ser, esse senhor era tão fofo. Ele me chamava de cadela, mas tratava tão bem os netinhos” – O senhor aos 56 anos estuprou uma neta de 10 anos, foi morto a paulada.
Ela ali naquele cemitério ficou em choque ao ver a parte das crianças, ela não se lembra de uma das alamedas. Do começo ao fim, apenas túmulos de bebês, eram bercinhos e caminhas. Chorou.
Ali na parte mais alta, ficou abismada com a vista dos mortos. Eles têm a visão mais bonita da cidade.
Quase voltando para o grande portão de ferro, ela se deu conta que jamais tinha visto tantas margaridas juntas, plantadas, vivas, branquinhas.
Chegando em casa, abraçou apertada e demoradamente os sobrinhos.
− A tia vai embora.
A irmã mais velha, quase pastora, não poderia deixar de perguntar:
− Tem conseguido vender muitos bordados? Você é a maior especialista em margaridas que já vi.
− Estou com muitos pedidos, muitos mesmo, continuo com mania de bordar na cama.
− Isso faz mal a sua coluna querida, não faça isso.
− Não é bem a coluna que sofre nessas horas irmã, mas as margaridas estão cada dia mais belas. Sou boa... Nisso.
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4 comentários:
Puta boa, é puta de família!! huahuahuahua
E que ainda por cima vota! Senhorr...abençoa as putas cidadãs neste meu Brasil...
Em um cemitério não interessa mais o que é o que... Que ótimo lugar para uma puta, um executivo (puto), um feirante, um empresário, um banqueiro, um cozinheiro...
A melhor vista é bem merecida para eles!
ola,
vim cá espreitar e gostei :))
beijinho
Ola,
meu nome é marcos e sou amigo da Dri Spinola. Adorei seus blogs. Só não gostei do numero de letras que é preciso para confirmar um comentario. Quase o alfabeto todo. Rsss
Sempre farei uma visita.
Bjs
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