“Quer saber? Estou cansada.”
O trabalho acabou um pouco mais cedo, nisso, não havia motivo para comemoração. Às 3h30min da manhã falta ônibus, sobra escuridão, surgem malucos, some qualquer ar de segurança.
O remédio é ir andando pela via principal.
Não é do tipo que busca clientes nas esquinas, não mais.
Coberta, até quase os pés, por uma capa de chuva, só o caminhar dava certeza que aquilo era uma mulher, o era.
A dúvida dela, talvez, fosse ser ainda pior que as dores que sentia nos lábios.
“Qual será a sensação de comprar alguém? Pago, uso, abuso, pago mais ser for preciso, não ouço reclamações, só apanho quando pedir, vou embora, só volto quando tiver disposição de pagar mais. Como será comprar alguém?”
Um passo, chuva forte. Dois passos, chuva muito forte. Três passos, chuva, vento, pedras.
Um ônibus todo apagado, mas ainda um ônibus.
Quase pulou na frente dele, carona, a essa hora não se paga mais, nem há quem cobre, não isso.
Desceu algumas ruas longe de casa.
Chuva, chuva, chuva.
As ruas estavam cheias de água e os sapatos?
Um acabava de quebrar o salto.
Em casa, seca, sem roupa.
“Como será comprar alguém?”
Dormiu. Acordou. Tomou café. Dormiu. Acordou. Almoçou. Dormiu. ACORDOU.
“Vou comprar alguém. Vou pagar para ter alguém hoje.”
Onde encontrar? Telefone? Internet?
“Claro que não. PUTEIRO.”
E lá foi.
Foi buscar em um lugar igual ao que era buscada. Olhou todas as mulheres ali e não sentiu vontade de pagar por nenhuma. Não queria nem de graça. Não era a beleza, eram os olhos. Vazios.
Quase indo embora, olhou uma mulher de cabeça baixa no canto do bar. Nem dava para saber se tinha olhos. Os cabelos loiros encobriam o rosto, mas podia ver o batom vermelho, meio escorrido pela boca.
― Oi.
Do meio daquele monte de fios atrapalhados, surgiu uma resposta:
― Oi.
― Uma noite?
― Mil reais.
― Conheço bem os preços, vamos.
No quarto amarelo, na cama de lençóis brancos, ela apenas pediu o que queria:
― Vim aqui para saber como é pagar por alguém...
― Disse que conhecia os preços, pensei que...
― Vim aqui para saber como é pagar por alguém. Aqui está o pagamento – colocou as notas na cabeceira da cama.
– Quero que me chupe toda, que não se esqueça de nenhuma parte, beije até entre os dedos, tem que beijar, não precisa colocar nenhum dedo dentro de mim, não sinto nada com isso, meu prazer está apenas em sentir a língua, já que mulheres não têm pinto, odeio vibrador, não use isso. Quanto ao orgasmo, é provável que aconteça apenas no clitóris. Se quiser, me beije na boca, mas não de boca suja, por favor. Talvez eu queira te beijar em algum momento. Talvez eu chupe seus peitos, apenas eles.
Pagar por uma loira perfeita da cabeça aos pés poderia valer à pena. Ficou quase imóvel, queria sentir apenas.
Cabelos por toda parte, uma mão em um seio, beijos na orelha e no umbigo, mais cabelos.
― Já estamos aqui há muitos minutos e você não parece estar gostando, se quiser, pegue seu dinheiro e vá embora.
― Não vou embora, continue.
Com saliva por todo o corpo, pensava se aquilo chegaria a algum lugar e teve certeza que não, não sem fazer algo, sempre ela, até quando é ela quem paga.
Mudou tudo, colocou a loira deitada na cama, olhou nos olhos dela e a beijou com muita vontade, mordendo os lábios de leve, beijava ardentemente, a invadindo com a língua, navegou pelos dentes até encontrar outra língua, corpos encostados e molhados, o beijo seguiu, os corpos balançavam, se esfregavam, o beijo não parava, não havia tempo para respiração, as mãos apertavam os seios, e depois os seios se tocavam, os pés invadiam tudo, enroscavam nas pernas, os joelhos encaixavam nas bucetas, as barrigas se encaixavam, o beijo acelerava e parava para o bico do seio passear pelo clitóris de uma, e os pés de outra no meio da bunda da uma, o beijo voltava; os corpos se agitavam, se apertavam, se juntavam com força, o ar faltava, o suor sobrava, as línguas queimavam, o cheiro dominava, o grito saía sufocado da boca de uma para a outra e tudo parava.
Dormiu. Dormiu. Dormiram.
No dia seguinte, quem pagava acordou, não viu ninguém. No quarto, somente móveis, imóveis, ela, metade do dinheiro e um bilhete:
O trabalho acabou um pouco mais cedo, nisso, não havia motivo para comemoração. Às 3h30min da manhã falta ônibus, sobra escuridão, surgem malucos, some qualquer ar de segurança.
O remédio é ir andando pela via principal.
Não é do tipo que busca clientes nas esquinas, não mais.
Coberta, até quase os pés, por uma capa de chuva, só o caminhar dava certeza que aquilo era uma mulher, o era.
A dúvida dela, talvez, fosse ser ainda pior que as dores que sentia nos lábios.
“Qual será a sensação de comprar alguém? Pago, uso, abuso, pago mais ser for preciso, não ouço reclamações, só apanho quando pedir, vou embora, só volto quando tiver disposição de pagar mais. Como será comprar alguém?”
Um passo, chuva forte. Dois passos, chuva muito forte. Três passos, chuva, vento, pedras.
Um ônibus todo apagado, mas ainda um ônibus.
Quase pulou na frente dele, carona, a essa hora não se paga mais, nem há quem cobre, não isso.
Desceu algumas ruas longe de casa.
Chuva, chuva, chuva.
As ruas estavam cheias de água e os sapatos?
Um acabava de quebrar o salto.
Em casa, seca, sem roupa.
“Como será comprar alguém?”
Dormiu. Acordou. Tomou café. Dormiu. Acordou. Almoçou. Dormiu. ACORDOU.
“Vou comprar alguém. Vou pagar para ter alguém hoje.”
Onde encontrar? Telefone? Internet?
“Claro que não. PUTEIRO.”
E lá foi.
Foi buscar em um lugar igual ao que era buscada. Olhou todas as mulheres ali e não sentiu vontade de pagar por nenhuma. Não queria nem de graça. Não era a beleza, eram os olhos. Vazios.
Quase indo embora, olhou uma mulher de cabeça baixa no canto do bar. Nem dava para saber se tinha olhos. Os cabelos loiros encobriam o rosto, mas podia ver o batom vermelho, meio escorrido pela boca.
― Oi.
Do meio daquele monte de fios atrapalhados, surgiu uma resposta:
― Oi.
― Uma noite?
― Mil reais.
― Conheço bem os preços, vamos.
No quarto amarelo, na cama de lençóis brancos, ela apenas pediu o que queria:
― Vim aqui para saber como é pagar por alguém...
― Disse que conhecia os preços, pensei que...
― Vim aqui para saber como é pagar por alguém. Aqui está o pagamento – colocou as notas na cabeceira da cama.
– Quero que me chupe toda, que não se esqueça de nenhuma parte, beije até entre os dedos, tem que beijar, não precisa colocar nenhum dedo dentro de mim, não sinto nada com isso, meu prazer está apenas em sentir a língua, já que mulheres não têm pinto, odeio vibrador, não use isso. Quanto ao orgasmo, é provável que aconteça apenas no clitóris. Se quiser, me beije na boca, mas não de boca suja, por favor. Talvez eu queira te beijar em algum momento. Talvez eu chupe seus peitos, apenas eles.
Pagar por uma loira perfeita da cabeça aos pés poderia valer à pena. Ficou quase imóvel, queria sentir apenas.
Cabelos por toda parte, uma mão em um seio, beijos na orelha e no umbigo, mais cabelos.
― Já estamos aqui há muitos minutos e você não parece estar gostando, se quiser, pegue seu dinheiro e vá embora.
― Não vou embora, continue.
Com saliva por todo o corpo, pensava se aquilo chegaria a algum lugar e teve certeza que não, não sem fazer algo, sempre ela, até quando é ela quem paga.
Mudou tudo, colocou a loira deitada na cama, olhou nos olhos dela e a beijou com muita vontade, mordendo os lábios de leve, beijava ardentemente, a invadindo com a língua, navegou pelos dentes até encontrar outra língua, corpos encostados e molhados, o beijo seguiu, os corpos balançavam, se esfregavam, o beijo não parava, não havia tempo para respiração, as mãos apertavam os seios, e depois os seios se tocavam, os pés invadiam tudo, enroscavam nas pernas, os joelhos encaixavam nas bucetas, as barrigas se encaixavam, o beijo acelerava e parava para o bico do seio passear pelo clitóris de uma, e os pés de outra no meio da bunda da uma, o beijo voltava; os corpos se agitavam, se apertavam, se juntavam com força, o ar faltava, o suor sobrava, as línguas queimavam, o cheiro dominava, o grito saía sufocado da boca de uma para a outra e tudo parava.
Dormiu. Dormiu. Dormiram.
No dia seguinte, quem pagava acordou, não viu ninguém. No quarto, somente móveis, imóveis, ela, metade do dinheiro e um bilhete:
“Ah! Vulgar amiga.
Tu me intrigas!
Dever ser uma viajante,
uma jogada à noite,
uma meretriz...
Nem por isso
vencida pela vida,
é apenas
um contratempo!”*
* Esse bilhete tem outro autor: Tossan.
15 comentários:
É uma história cativante. :)
De facto o sexo pago deve ser algo que só pode ser experienciado e não explicado. Só quem já passou por ele sabe a sensação. E, até certo ponto, conseguiste explicar em que consiste essa sensação... ;)
A pessoa que nunca comprou sexo por ecomenda ou da vitrine jamais saberá a diferença. Ficou bem o poema no seu blog gostei muito. Obrigado
Mas que puta louca. Gostei dela, será que cesou sua curiosidade?
Acho que sim. Gostei do blog.
beijos
quase consegui "apalpar" esse texto... mas senti um tequinho do cheiro
Escreves muito bem. Vou voltar sempre.
Dessa vez ela pagou com dinheiro para saber...
Muitos pagam e não se dão conta, muitos cobram e não se dão conta.
Nem sempre o dinheiro é a moeda cobrada: um sorriso, um carinho, um olhar mais atento, um orgasmo...
Quem nunca vestiu a "máscara" da puta que busca outra puta?
ótimo post, muito bom.
Maurizio
Seu texto me colocou numa outra dimensão. Terminar com versos do Tossan foi divino.
Só me resta agradecer por isto.
Beijos carinhosos, com aroma de rosas, do João
Gostei do seu conto.
Dá para ver as imagens de tão realista que é a sua narrativa.
Querida amiga, gostei de te acompanhar durante 2008 e espero continuar por muitos anos, pelo menos enquanto os nossos blogues voarem...
Desejo-te um óptimo 2009.
Beijo.
"A cada dia de nossa vida, aprendemos com nossos erros ou nossas vitórias, o importante é saber que todos os dias vivemos algo novo. Que o novo ano que se inicia, possamos viver intensamente cada momento com muita paz e esperança, pois a vida é uma dádiva e cada instante é uma bênção de Deus".
" UM FELIZ ANO DE 2009 "
Instigante, intrigante.
Cadinho RoCo
complicado ne?
ótimo ano pra vc.
um bjo na mão princesa.
rs. legal os textos.
volto.
abraços
Formidável texto. Tem ar assim... um tanto quanto Nelson Rodrigues. Adorei! Tem nele uma coisa teatral que nos cativa e faz ver as cenaas de uma maneira, por vezes cômica e por outras extremamente sensuais. Amei o blog. Estou escrevendo um romance sobre uma puta, em outro momento (see quiser) trocamos figurinhas. Um super beijo. E acredite, voltarei!
Quero um beijo.
na boca seca
de tão sedenta
na sede forte
que não se aguenta
que molha os lábios
e sede o beijo
e a água quente
do desejo
só esquenta...
E a gente tenta
não pedir
um beijo longo
de seis lábios
de dois lados
já beijados
e a água quente
do desejo
evapora
e fico mais sedenta agora
e nessa hora
a água quente do prazer
é tomada!
Poema da amiga
*De Nih* Bj
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